Dorina de Gouvêa Nowill nasceu em São Paulo, em 1919. Aos dezessete anos, perdeu a visão por causa de uma doença. Era 1936, e o destino reservado a uma jovem cega naquele Brasil era estreito — invisibilidade, dependência, exclusão da vida pública. Ela recusou esse destino.
Formou-se professora, estudou nos Estados Unidos, especializando-se em educação de pessoas com deficiência visual, e voltou ao Brasil determinada a mudar o que encontrava aqui: livros em braille eram raros, caros, produzidos artesanalmente, e quase ninguém tinha acesso.
Em 1946, ela fundou a Fundação para o Livro do Cego no Brasil — a instituição que, décadas mais tarde, seria rebatizada com seu nome: Fundação Dorina Nowill para Cegos. Sob sua liderança, o país começou a produzir livros em braille em escala, distribuindo-os gratuitamente para escolas, bibliotecas e leitoras e leitores cegos em todo o território.
O que ela fez não foi caridade. Foi infraestrutura — pública, gratuita, distribuída — em um país onde acesso à leitura era privilégio.
Mais tarde, foi também pioneira dos audiolivros no Brasil, antecipando uma transição tecnológica que só se popularizaria décadas depois. Atuou em organismos internacionais de inclusão e foi reconhecida no mundo todo pelo trabalho de fazer da educação um direito, e não um favor.
Quando morreu, em 2010, deixou mais de seis décadas de trabalho dedicado à mesma coisa: tornar disponível, para quem antes era excluído, aquilo que outros já tomavam por garantido.